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Especialista: novos empreendedores acreditam em instituição horizontal

“Empreendedores sociais mais novos não querem empregados, gerenciar muitas pessoas, se responsabilizar por grandes orçamentos, angariar fundos constantemente e passar 50% do seu tempo se reportando para os doadores”, afirma Chris Cusano, que há 25 anos trabalha na área.  Desde 2000, ele já esteve em países de África, Ásia, América Latina e Europa entrevistando empreendedores sociais em colaboração para Ashoka. Após 14 anos, ele retorna ao Brasil e enxerga essa característica presente na maioria dos líderes. “Eles veem o mundo de uma forma diferente, capacitado pela tecnologia no qual é possível encontrar pessoas que querem fazer o mesmo que você e que não é preciso contratá-los como empregados necessariamente.” Para ele, o empreendedorismo social não é algo passageiro, pois atingiu o mercado tradicional. “Eles veem um valor no trabalho dos empreendedores sociais relacionado ao núcleo de seus negócios.” Qual sua colaboração para a Ashoka?

Vim ao Brasil para entrevistar candidatos para serem fellows da Ashoka. É a terceira ou quarta vez que venho para entrevistar pessoas, mas houve uma grande lacuna. Não venho desde 2003. Faço isso sempre que posso em diferentes partes do mundo. Tenho entrevistado candidatos há cerca de 17 anos e tive a oportunidade para ir a lugares onde normalmente não iria. Nessa etapa do processo [de seleção de fellows], a Ashoka convida alguém de fora do país para entrevistar os candidatos. Convidamos também aqueles que já são Ashoka fellows para conhecer e entrevistar os potenciais candidatos. É uma alternância entre conhecimento local e perspectiva internacional.

O que os empreendedores têm em comum e o que não têm entre os países onde você já esteve?

De maneira geral, as similaridades são maiores que as diferenças. Se juntar os fellows de diferentes partes do mundo numa mesma sala, fica claro que essas pessoas têm algum em comum. Têm personalidades similares e interagem muito bem entre si. São todas pessoas muito abertas às ideias dos outros, a aprender. São todos criativos. Acho que as diferenças são bem pequenas, na verdade. As áreas de trabalho que eles escolhem trabalhar podem ser diferentes, mas em termos de personalidade, é consistente.

O que mudou no empreendedorismo social brasileiro de 2003 para cá?

Não sou um especialista no Brasil, mas posso falar um pouco do que vejo hoje. Temos essa geração mais nova de empreendedores sociais surgindo com ideias muito diferentes sobre o tipo de organizações que querem liderar. Todos acreditam em organizações horizontais, onde a maior parte do trabalho realizado na verdade não é feito pelos empregados da organização, mas por voluntários, parceiros, envolvidos no movimento. Antigamente, parecia que a única forma de obter sucesso era construir uma organização forte, com recursos para contratar a equipe que precisa. Normalmente, isso resultava em muito tempo angariando fundos e reportando como esse dinheiro é gasto. Esses empreendedores sociais mais novos não querem nada disso. Não querem empregados, gerenciar muitas pessoas, se responsabilizar por grandes orçamentos, angariar fundos constantemente e passar 50% do seu tempo se reportando para os doadores. Eles veem o mundo de uma forma diferente, capacitado pela tecnologia no qual é possível encontrar pessoas que querem fazer o mesmo que você e que não é preciso contratá-los como empregados necessariamente. Isso é muito interessante.

Você acha que isso é uma evolução?

Sim. Falei com um homem que começou sua organização, estava indo bem, ele contratou pessoas muito boas, foi atrás de trabalho para garantir a entrada de recursos para a organização manter essas equipe qualificada. E ele viu que rapidamente entrou em um ciclo vicioso. Temos pessoas para conseguir trabalhar para obter dinheiro para manter as pessoas. É uma evolução com uma lógica compreensível por trás.

Você vê esse movimento em outros países?

Está acontecendo em outros países, mas ficou muito claro para mim aqui no Brasil porque vi muitas pessoas falando sobre isso. Estamos vendo cada vez mais pessoas experimentando esse tipo de estrutura horizontal em organizações.

Como você avalia o movimento do empreendedorismo social?

Podemos olhar de diferentes formas, tanto como um fenômeno, como algo que já existia na sociedade, já estava acontecendo, mas não conseguíamos entender. O que Ashoka deu para o mundo foi uma forma de entender, um termo. Olho primeiramente para o empreendedorismo social como um fenômeno e depois se torna um movimento porque as pessoas não estão só fazendo, mas estão falando sobre, aprendendo e compartilhando.

A impressão é a de que o setor vem crescendo. Isso é apenas uma impressão de dentro do ecossistema?

Não, está se espalhando. Começamos a ver empresas entenderem que empreendedores sociais têm uma visão do comportamento humano que têm valor para eles. Eles veem um valor no trabalho dos empreendedores sociais relacionado ao núcleo de seus negócios. Isso é uma tendência ou algo momentâneo?Definitivamente isso é uma tendência porque não é algo do empreendedorismo social, é uma tendência no mercado.

Você acredita que no futuro não haverá distinção entre negócios tradicionais e negócios sociais?

Às vezes parece que estamos nos movendo nessa direção, mas é muito cedo para saber. Uma das ideias que acho muito interessante é: e se houvesse apenas empreendedorismo? Não empreendedorismo tradicional e empreendedorismo social, mas que todo empreendedorismo gere valor para a sociedade de diferentes formas. É um objetivo muito interessante para tentarmos atingir.

Como você enxerga alguns governos que parecem trabalhar contra o impacto positivo?

O empreendedorismo social tem uma relação muito interessante com o governo. Bons empreendedores sociais têm diferentes papéis nessas interações. Às vezes, eles precisam ser os críticos do governo, outras o o ajudante. Às vezes, precisam ensinar o governo a como fazer seu trabalho de maneira correta ou mobilizar pessoas para pressionar o governo. As pessoas acham que isso é ativismo, como se ativismo fosse uma palavra feia. Mas não. Empreendedores sociais fazem o que for preciso para criar as mudanças que querem criar e, normalmente, não têm uma visão dogmática de se recusar a dialogar com o governo. Eles querem fazer mudanças sistêmicas e é difícil fazer isso se não se estiver disposto a dialogar com o governo. (Folhapress.)

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